Ao ver um vídeo daquela jornalista Rachel Sheherazade defendendo Cunha meses atrás (agora, se quer comenta suas tais contas secretas em seu perfil!), me fez pensar que seus comentários são de “direita” demais. O “conservadorismo”, o espelho da “direita”, nunca foi o meu. Afinal, Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Rachel Sheherazade- pessoas assim- levantam bandeiras contra o casamento igualitário, contra a legalização da maconha, contra o aborto, à favor de misturar a sua religião às leis do Estado, à favor de um estado-mínimo… Enfim, sempre me encontrei no campo ideológico oposto. Sempre fui “progressista”. Sempre gostei um tanto da transformação, revolução, liberdade.
Aqui no Brasil, talvez por causa da ditadura militar (um movimento de “direita”), a maioria dos partidos (após serem novamente legalizados) se deslocaram para a “esquerda”. Logo, diferentemente dos EUA, não podemos considerar a nossa polaridade partidária entre PT e PSDB como sendo de “esquerda” contra a “direita”. Nos EUA, ainda que ambos os partidos sejam super à favor do ‘livre mercado’, Obama é chamado de ‘socialista’ quando, por exemplo, financia planos de saúde para as camadas mais vulneráveis da sociedade (‘Estado grande’ demais e não ‘mínimo’). Imagine. Se nos EUA, a “direita” (personificada pelos republicanos) e a “esquerda” (pelos democratas) têm questões comportamentais- casamento gay, legalização das drogas, etc.- bastante contrárias, o mesmo não acontece no Brasil. Ambos, PT e PSDB, são partidos que transitam pela “centro-esquerda”. Ainda que os ‘movimentos sociais’ sejam base de apoio do PT e o PSDB tenha se deslocado levemente em direção à “direita” para diferenciar-se do PT. (Claro, partidos como PSOL estão ainda mais à “esquerda” e partidos como PR estão bem mais à “direita”).
De qualquer forma, temos 30 partidos… de qualquer forma, o partido que representaria a “esquerda” brasileira (PT) faz alianças com partidos de campos ideológicos diversos; o chamado “presidencialismo de coalizão”, inventado no Brasil. As alianças não são ideológicas ou nem mesmo de um “projeto de Brasil”. Ao contrário, são alianças baseadas no “toma-lá-dá-cá”, em tempo de TV, em tentar garantir votos no Congresso. Nasce então a necessidade do sempre poderoso e oculto PMDB, um partido nem para “esquerda”, nem para “direita”, um partido de “centro” que abriga de tudo (inclusive tipos bastante conservadores como Eduardo Cunha). Partido centrista extremamente necessário para se criar outro conceito, a chamada “governabilidade”.
Bem, descrevo o por quê da minha afinidade ideológica pela “esquerda” (1), a “geléia geral” que é a estrutura partidária brasileira (2), e os mecanismos podres para se fazer Política no Brasil (3) para dizer que Eduardo Cunha nunca me enganou; arrogante, ladrão, corrupto. Já o PT me enganou… mesmo sem entender termos, o vocabulário, a política… eu lembro de querer que Lula ganhasse em 2002. Um cara que nasceu pobre chegando à Presidência da Nação. De ‘gato borralheiro’ ao Palácio; é bonita esta fábula, não? E eu, levemente “americanizado”, gostava também dessa alternância de poder, a la Estados Unidos.
No entanto, este movimento dos últimos meses… de o ex-presidente Lula tentar um “acordo” com o super encrencado Eduardo Cunha, mostra que nossa política anda muito estranha. Somente ontem o PT fez uma manobra pró-Cunha bastante reveladora. Apesar de minha identificação com o lado mais à esquerda do espectro político, é preciso admitir que o chamado Partido dos Trabalhadores cometeu diversos erros… e continua errando. Após quase 15 anos desse “status quo”, não creio mais em um futuro promissor com este mesmo partido continuamente no poder. Ao mesmo tempo, não acredito em “impeachment” (episódio altamente traumático para qualquer nação), mesmo Dilma tendo mentido sobre a economia nas eleições de 2014, mesmo que ela tenha adotado as medidas econômicas um tanto tucanas que criticava.
A questão é que Dilma não governa, ela tenta governar…. será assim até 2018? Uma presidente agonizante que não consegue implementar seu programa, não consegue fazer o Brasil andar. (Programa esse que inclui consertar alguns de seus próprios erros do primeiro mandato). Para concluir, acredito que precisamos de algo novo. O modelo atual acabou. O Brasil vive um momento de transformação. Não é a volta de Lula em 2018 (como nos EUA, ex-presidente é ex-presidente). O que seria? Quem seria? Talvez a Rede de Marina? Não sei. Mas sei que precisamos de uma nova ordem política no país.
ESPRESSO SHOTS
Terror na França. Ministro da França alertou o Parlamento hoje para o perigo de mais ataques terroristas. Dessa vez, com armas químicas e biológicas.
Crise migratória pós-Paris attacks. A Câmara dos EUA aprovou a suspensão da entrada de refugiados nos EUA. Obama diz que vai vetar.
Revolta parlamentar. Após a manobra de Cunha para adiar a leitura do parecer de seu processo na Comissão de Ética da Câmara, deputados se revoltaram, pois Cunha, sendo presidente da Câmara, tem o poder de convocar o Plenário, quando isto acontece, as comissões são interrompidas; foi o que ele fez.
Até quando ele vai rir da nossa cara? A suspensão já é uma manobra por si só, mas quando chegaram no Plenário, parlamentares descobriram que a sessão na Comissão de Ética havia sido cancelada por um aliado de Cunha. Se Cunha já não tinha muita credibilidade para presidir a Casa, agora ele a perde por completo.
Cunha além do legislativo. O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Marco Aurélio de Mello, pediu ontem a saída espontânea de Eduardo Cunha; “Seria um gesto de grandeza”, afirmou o representante do Poder Judiciário.
Timão campeão. O Corinthians empatou e venceu o Campeonato Brasileiro pela 6a vez.