
Boa noite, Espresso lovers!
Moendo grãos na Inglaterra.
Londres anda ensolarada e uma temperatura super amena. Mas o que não anda nada ameno é o clima no Brasil, né? Eleições chegando, crise sem fim, polarização em alta. E nesse ano, em que a Constituição completa – apenas – 30 anos, o Brasil Forum UK foi palco de ótimos debates e painéis que colocaram o Brasil em perspectiva.
A little bit of this, a little bit of that.
Dentre temas que foram de crise entre os poderes a desigualdades, e de economia a racismo e empreendedorismo, o final de semana foi intenso. Os diversos convidados – com diferentes pontos de vistas – possibilitaram a reflexão sobre o momento atual do país e do que o futuro nos reserva. Vamos destacar três personagens.
Barroso, O Otimista
Ô abre alas.
Em meio aos 30 anos de Constituição, o juiz supremo – indicado por Dilma em 2013 – disse que a “negatividade” que tomou conta do país não pegou, sim, “o retrato ruim é ruim”, disse Barroso, mas “a longo prazo é bom para o Brasil”. Este é um momento especial de refundação do país. Para Barroso há uma novidade política.
Feel the energy.
Esta é a energia que nos empurra: “o velho está morrendo, mas o novo ainda não nasceu”. Ele então traça um panorama histórico e destaca três coisinhas que nos moldaram e nos atrasaram: o patrimonialismo (advindo dessa nossa formação ibérica, portuguesa); o oficialismo (permanente onipresença do estado na vida brasileira); e o paternalismo (essa cultura de compadrio, favorecimento, loteamento).
Ainda assim.
Apesar das crises que enfrentamos nesses 30 anos, não houve desvios institucionais que sempre marcaram a América Latina. O impeachment foi um trauma, sim, mas é preciso separar a “dimensão política” da “dimensão jurídico- constitucional”. Não houve ruptura constitucional, mas a leitura do que houve politicamente é diversa e ele próprio tem sua versão, que ele não pode manifestar. Oopsie.
Aceita.
Se a 1a conquista é estabilidade institucional, a segunda foi a estabilidade monetária, que veio com o Plano Real. E então, a terceira conquista: “uma das mais expressivas inclusões sociais do mundo, entre 30 e 40 milhões saíram da pobreza”. O Brasil ainda foi o país latino-americano que mais aumentou seu IDH nesse meio tempo. O ciclo de PSDB-PT foi de progresso.
Copo metade cheio.
Ou metade vazio? Na tentativa de mostrar que a coisa está feia, mas não tão feia assim, Barroso diz que nós derrotamos a ditadura, derrotamos hiperinflação, começamos a derrotar pobreza, houve direitos das mulheres, direitos LGBT, igualdade no mercado de trabalho, mas…
Nem tudo são flores.
Não mesmo. Nosso sistema político (sistema de governo, sistema partidário, sistema eleitoral) é feito “pra reprimir o bem e potencializar o mal”, para mudar isso, claro, reforma política – que barateie o custo da eleições; aumente a representatividade; e facilite a governabilidade. O remédio: voto distrital (como na Alemanha) para acabar com o ‘pacto oligárquico’, esse modo natural de se fazer política no Brasil.
Dilma Is In The House
Que golpe foi esse?
A ex-presidente é bem mais pessimista. Se Barroso iniciou os debates, Dilma encerrou o primeiro dia, e entre os dois houve vários painéis, mas é interessante notar que os dois concordam em uma coisinha: reforma política. Não dá pra governar com uma base de 20 partidos, ela diz. Bom, Dilma desenhou o que chama de golpe. Lembrando que ela caiu dois anos atrás por causa de regras orçamentárias.
Relembrar é viver.
Dilma não fala dos 30 anos desde a Constituição, mas dos últimos três anos. Ela diferencia o golpe militar de um golpe parlamentar e diz que o golpe agora não foi um ato, mas todo um processo que começa assim que ela é reeleita. Quem arquiteta sua queda são partidos conservadores que esperam se beneficiar de sua saída – juntamente com o ‘partido da toga’ e o ‘partido da mídia’.
De 4 em 4 anos.
Ela diz que se a causa do impeachment é o tal ‘plano safra’ – criado para o financiamento da agricultura e o atraso em repor o crédito -, além dos três decretos que aumentaram as despesas, o discurso é de que ela deveria cair pelo ‘conjunto da obra’. Conjunto da obra, diz Dilma, só se derrota nas urnas. Pois bem. No entanto, diz Dilma, o golpe termina por ‘acabar’ não só com o PT, mas com o centro. Alckmin só tem 6% e no lugar surgiu o extremo. Sabe quem é, né?
Quando o feitiço vira contra o feiticeiro.
Ela lembra que foi graças a ela – em 2013 – que a lei da delação foi aprovada, mas diz que se arrepende, pois fez uma lei muito abrangente e que as delações foram usadas para torturar delatores. Ela faz um mea-culpa sobre a crise fiscal, que começa em 2008 com a crise financeira mundial, mas se agrava com suas medidas econômicas, e admite que errou ao retirar impostos dos empresários. Vivendo e aprendendo.
I’m Back, Bitches
Daqui pra frente.
Marina Silva começou falando da crise econômica, social, mas principalmente da crise ética: é preciso pensar a mudança, mas “o novo não se cria em cima do nada, o novo se cria em cima de algo existente”. É preciso preservar as conquistas e então transformar, agregar. Sem esquecer-se do reconhecimento histórico.
Nem 8, nem 80.
Os três grandes partidos cumpriram grande papel nesses 30 anos, diz Marina. O PMDB foi o grande guarda chuva da democracia nascente pós-ditadura. O PT ajudou a atualizar a social democracia, de cunho mais popular, inclusão política pra quem jamais teria participado. E o PSDB – também da social democracia –, fruto do racha do PMDB, nos deu a estabilidade econômica.
Let’s get together and feel alright.
Se a democracia foi preservada, a inflação e a desigualdade combatida, onde nos perdemos? Como reagir? Essa resposta não se dá apenas por uma corrente, um grupo. A verdade não esta com nenhum de nós, está entre nos. Não podemos partidarizar as boas políticas conquistadas nos últimos 30 anos.
It’s a new day.
Marina vê o declínio dos partidos, no Brasil e no mundo, e o surgimento do que chama de ‘partido-movimento’. Há um novo sujeito político, como se viu nos protestos de 2013, que não teve liderança política. Esse mundo em crise faz muitos quererem regredir, uma sociedade infantilizada, simplista, mas o mundo não muda assim.
Brasil, meu Brasil brasileiro.
Para Marina, 2014 foi uma fraude – é só somar o caixa 2 de PT e PSDB –, mas então usa uma frase de Shakespeare para dizer que justiça não pode ser vingança: justiça é reparação. Para ela, a melhor solução teria sido, não o impeachment, mas caçar a chapa Dilma-Temer, pois fizeram, o que fizeram, juntos. Esse ano, ela só terá 10 segundos na TV. Vida que segue.
E assim deixamos Londres, pensando em como construir os próximos 30 anos do Brasil. Que seu final de semana termine de forma ainda mais reflexiva. Nos vemos amanhã, dia de branco.