Em meio ao agravamento da crise política, não se pode esquecer da crise econômica que aflinge o país; a solução está essencialmente ligada à melhora do cenário político – que não para de se complicar.
As crises econômicas são cíclicas e inerentes ao capitalismo; são parte do sistema. É engraçado notar que o ciclo político do Brasil está intrinsecamente conectado à economia internacional e ao contexto global, no sentido em que existem duas colunas estruturais (falarei sobre uma delas aqui – a outra seria a taxa de juros americana) que simplesmente não podem ser controladas pelo governo brasileiro e que terminam por afetar a dinâmica da política doméstica. Como todas as democracias latino-americanas, o Brasil é um exportador de commodities e seu preço internacional nos afeta. Podemos ter começado com o pau-brasil (conseqüentemente nomeando nosso país), seguindo então para o açúcar, o ouro, café, não importa, quando os preços de determinadas commodities estão em alta lá fora, o Estado brasileiro consegue gastar mais dinheiro e conseqüentemente a popularidade do presidente sobe. É fato que vivemos o fim de um ciclo; a China diminui seu apetite, o preço do aço, do petróleo estão mais baixos do que nunca; o ‘boom’ das commodities acabou. No entanto, nada disso exime a presidente da escolha de suas políticas econômicas.
Ao abordar a crise econômica que nos assola, a presidente insiste em culpar a crise global, mas não menciona seus próprios erros fiscais quando tentou combater o início da Grade Recessão de 2008/2009. Quando as instituições financeiras entraram em colapso, Lula disse que era então apenas uma “marolinha”. De fato, o Brasil foi o último país a entrar em recessão na época e o primeiro a sair, crescíamos a 7% (enquanto os EUA lutavam para crescer 1%). Éramos uma estrela em ascensão. A crise global de 2008, na verdade, foi algo bom para o Brasil, já que transformou a ordem internacional. Se antes de 2008, era basicamente um mundo dominado e orientado pelos EUA, depois de 2008, podemos dizer que os BRICS se consolidaram e o mundo se tornou multipolar.
No entanto, a falta e a inabilidade em reformar o país durante a crise foi pior para o Brasil do que a crise em si. E um dos principais personagens de nossa crise atual é a chamada “Nova Matriz Econômica”, produzida a partir de teorias da Unicamp, e lançada por Dilma (e seu ministro de então Guido Mantega) ao tentar lutar contra – ou pelo menos adiar – as conseqüências da recessão. Ao invés das urgentes reformas que necessitávamos, o Brasil adotou medidas cosméticas, como oferecer isenção de impostos para setores específicos da economia, taxas de juros abaixo do mercado (através do BNDES) para empresas grandes, ressuscitado assim o “capitalismo de estado” ao seu melhor estilo. Ainda que a economia global – e o ciclo das commodities – tenha ajudado a levar o Brasil do paraíso ao inferno contábil, a presidente da República contribuiu – e muito. Ela agravou a situação ao pôr fim nas reformas econômicas liberais da era Cardoso-Lula, ao ignorar a Lei de Responsabilidade Fiscal, e ao fomentar a idéia de que se pode viver com um pouquinho de inflação (para que o país cresça).
A crise é tamanha, que a presidente, apesar de dizer que não mexeria nos direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa” durante a campanha de 2014, tentou fazer isso. Mas nem o PT a ajuda. Ela jogou luz sobre um problema urgentíssimo: a Reforma da Previdência (de fato necessária para contornar nossos problemas fiscais). Mas o PT não quer. E ela terminou por enterrá-la de vez, após o ápice que atingiu a crise política na semana passada. Tais reformas precisam ser discutidas para que o Brasil encontre uma solução duradoura para seus problemas fiscais. Mas Dilma tem alguma força política para implementar mudanças tão profundas? O mundo já voltou a crescer, mas nós encolhemos 3,8% em 2015 e as previsões são de incríveis 4% de recessão para esse ano. A últimas vez em que tivemos recessão dois anos seguidos foi em 1930/1931, no governo Vargas. Ainda assim, a presidente Dilma consegue quebrar este recorde macabro.
A crise política pode não ter sido causada exclusivamente pela presidente da República, mas a crise econômica contou com participação significativa dela; ela é a culpada.
Vitor Lima Evangelista de Souza
Editor-chefe do Espresso
ESPRESSO SHOTS
Histórico! Continuando sua visitinha de 3 dias à Cuba – a primeira em 88 anos de um presidente americano – Obama teve um tête-à-tête com Raul Castro ontem e disse que o embargo vai acabar. Será? Antes de chegar à Cuba, Obama participou na TV do mais famoso programa de comédia cubano, assista.
Lava Jato ganha o mundo. Na 1a fase internacional, um dos operadores do petrolão, sócio de um antigo diretor da Petrobras, Raul Schmidt, foi preso em Portugal. Ele estava foragido desde o ano passado.
De plantão. Lula esteve ontem à noite no Palácio do Planalto para nova reunião com a presidente Dilma. Eles discutiram o futuro do governo que se complica a cada hora. Em tempo, o ex-presidente já pensa em desistir do cargo de ministro. Não tá tranquilo, nem favorável.
Passa ou repassa. O ministro do STF, Edson Fachin, rejeitou o habeas corpus do advogado de Lula que anularia a decisão de Gilmar Mendes (que manteve a suspensão de Lula para ministro). Habeas corpus não valem em decisões do STF, disse Fachin. Já em outra decisão – um recurso sobre manter a investigação sob o juiz Moro – Fachin se disse impedido, pois é amigo de um dos advogados de Lula; a decisão passou para a ministra Rosa Weber.
Não vai ter golpe. Um grupo de juristas, procuradores e professores universitários (com perfil mais à esquerda) vão se encontrar hoje com Dilma para manifestar apoio.
A novela continua. Eduardo Cunha apresentou ontem – no último dia do prazo – a sua defesa ao Conselho de Ética. Agora o relator tem 50 dias úteis para apresentar o relatório final. Enquanto o impeachment anda a passos largos, a cassação de Cunha anda devagarzinho…
RIP Petrobras. O rombo no caixa da Petrobras em 2015 foi de nada menos que R$ 34 bilhões. É o maior prejuízo anual já registrado pela Petrobras. Tenso.
Legalize. A partir de agora pacientes no Brasil podem se tratar com remédios que contenham canabidiol e THC. As substâncias extraídas da maconha passaram a ser autorizadas ontem pela ANVISA (Vigilância Sanitária); um belo avanço no país.
Dá o pé lôro. Cientistas vêm desvendando novas surpresas sobre os papagaios. Pesquisas divulgadas ontem pelo New York Times mostram que eles rivalizam em inteligência com macacos e golfinhos; e alguns sabem contar, usar ferramentas, e até dançar.
Tweet, tweet. O Twitter completou 10 anos neste dia 21 de março. De Yoko Ono a Wesley Safadão, passando pela nossa presidente; veja a primeira mensagem das personalidades.